segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Espanhóis realizam festival 'viking' na lama

Fantasiados de viking relembram ataque ao país há quase mil anos.
Festival anual acontece na cidade de Catoira, na costa oeste da Espanha.

 
G1 com informações da AP


Homem se joga na lama durante festival viking na Espanha. (Foto: Lalo R. Villar/AP)


O Festival acontece no primeiro domingo de agosto, comemora os ataques vikings na costa noroeste da Espanha, cerca de 1000 anos atrás. (Foto: Lalo R. Villar/AP)


Mulheres também participam do festival na Catoira, município na província de Pontevedra, comunidade autónoma da Galiza (Foto: Lalo R. Villar/AP)


Folião vestido de guerreiro viking participa de festival neste domingo (05). (Foto: Lalo R. Villar/AP)

domingo, 5 de agosto de 2012

Arqueólogos desenterram passado de mais de 8 mil anos na Grande BH/MG

Estudiosos encontraram quase 5 mil peças em Matozinhos.
Elas foram lavadas, passaram por triagem e ganharam identificação.


Alex Araújo, do G1 MG
Milhares de fragmentos de ossos humanos, de conchas e de pedras. Este é o resultado de seis semanas de escavações feitas por uma equipe multidisciplinar composta por arqueólogos, bioantropólogos, geólogos, geógrafos, historiadores e artistas plásticos no distrito de Mocambeiro, em Matozinhos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Os profissionais estavam à procura de sepultamentos que ocorreram, de acordo com eles, há mais de 8,2 mil anos em um sítio arqueológico chamado Lapa do Santo.

Arqueólogos fazem escavações na Lapa do Santo, em Matozinhos (Foto: Alex Araújo/G1)
Arqueólogos fazem escavações na Lapa do Santo, em Matozinhos (Foto: Alex Araújo/G1)

A segunda fase dos trabalhos começou no dia 24 de junho e termina neste domingo (5). De acordo com o arqueólogo e coordenador da iniciativa, André Strauss, de 28 anos, quatro sepultamentos humanos, ferramentas, chifres de animais e centenas de lascas de pedras de quartzo foram localizados nos seis metros cúbicos de escavações. A expedição começou com 35 integrantes e terminou com 19.
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Na primeira etapa, em 2011, quatro metros cúbicos de área foram explorados. Os trabalhos serão reiniciados em julho de 2013. De acordo com Strauss, as escavações são feitas no período de seca porque é impossível chegar ao local pelas estradas de terra em época de chuva e também porque concilia com as férias acadêmicas, já que a maioria dos expedicionários ainda estuda.

Intitulado “As práticas mortuárias dos primeiros americanos”, Strauss disse que o projeto tem como objetivo saber como viviam os nossos antepassados. "A intenção é descobrir sobre a mobilidade, estratégias de subsistência, alimentação e rituais feitos nos funerais como a manipulação, corte, reorganização de ossos e como era a visão deles em relação à morte", explicou.

Strauss contou que os trabalhos de buscas eram feitos de segunda-feira a sábado, das 8h30 às 17h30, com intervalo para refeições, no sítio arqueológico, em Matozinhos. A jornada se estendia á noite, depois do jantar, na base de pesquisa, no Parque Estadual do Sumidouro, gerido pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), em Pedro Leopoldo, também na Grande BH, onde os estudiosos faziam a triagem dos materiais. Strauss revelou que mais de 4.816 peças entre ossos, conchas e pedras foram recolhidas na expedição.

Segundo especialistas, crânio encontrado pode ter de 8,2 mil a 8,4 mil anos. (Foto: Alex Araújo/G1)
Segundo especialistas, crânio encontrado pode ter de 8,2 mil a 8,4 mil anos (Foto: Alex Araújo/G1)

Na última terça-feira (31), um crânio adulto, provavelmente de um homem, foi encontrado. Os arqueólogos estimam que ele tenha de 8,2 mil a 8,4 mil anos.

Todos os elementos encontrados durante a expedição serão levados para o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos, na Universidade de São Paulo (USP) e, de acordo com Strauss, serão estudados por um período que varia entre dez e 15 anos.

Ele disse que, depois de escavar e descobrir as raridades, o acervo passa por lavagem, triagem, colocação de código de barras para identificação e registro informatizado com etiquetas plastificadas. “Toda a experiência foi trazida da Alemanha, do Instituto Max Planck, que financia o projeto”, explicou. Ele preferiu não divulgar o valor do apoio, e destacou a importância da tecnologia nos trabalhos.

Os especialistas em arqueologia usam a datação por carbono 14 para descobrir a idade dos fósseis escavados. O processo determina a idade dos objetos de origem biológica como ossos, tecidos, madeira e fibras de plantas. “À medida que o carbono 14 diminui, sabe-se a meia-vida do elemento por causa da proporção”, disse Strauss. Cada meia-vida do carbono 14 é de 5,7 mil anos.

Carro que levava arqueólogos teve problemas mecânicos (Foto: Alex Araújo/G1)
Carro que levava arqueólogos teve problemas mecânicos (Foto: Alex Araújo/G1)

Contratempos

Na última quarta-feira (1º), quando o G1 foi à Lapa do Santo, registrou um contratempo. A Kombi que transportava a equipe que trabalhava nas escavações quebrou no caminho entre a base de pesquisa e o sítio arqueológico, um percurso de aproximadamente 25 quilômetros que é feito em cerca de 40 minutos. Faltou óleo no motor e o veículo parou. Mas nada que tirasse o bom humor e a vontade de trabalhar dos dez expedicionários.

Quatro deles seguiram viagem no carro da reportagem e os outros ficaram na estrada aguardando por socorro, que chegou rápido e os levou até as escavações.

E não há imprevistos que façam os especialistas desistirem de trabalhar. É o caso da bioantropóloga e cocoordenadora do projeto, Mariana Inglez, de 23 anos, que veio de São Paulo. “Essa etapa de campo é muito importante porque a experiência de campo é fundamental. Vale a pena a distância e a saudade da família”, disse Mariana.

Ela contou que a mãe fica triste com a ausência, mas apoia porque entende a importância do projeto. “Não tem problema o carro quebrar, a gente ter que fazer xixi no meio do mato, ter que dividir o quarto e o banheiro com mais de 20 pessoas”, falou, bem-humorada.

Já a arqueóloga portuguesa Sônia Cunha, de 29 anos, formada pela Universidade do Minho, falou que a experiência é compensadora porque ela não havia trabalhado especificamente na área. Sônia destacou a importância da informatização no processo de registro. “Dessa forma não se perdem minúcias dos dados”. Ela também destacou a oportunidade única de trabalhar com arqueologia em Minas Gerais.

Visão externa da Lapa da Serra, em Matozinhos (Foto: Alex Araújo/G1)Visão externa da Lapa do Santo, em Matozinhos (Foto: Alex Araújo/G1)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Navio Negreiro


I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II


Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...


III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...
 




V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...

VI


Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Castro Alves




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Obama pode descender de um dos primeiros escravos africanos nos EUA

Washington, 30 jul (EFE).- O presidente dos EUA, Barack Obama, poderia descender de um dos primeiros escravos africanos da história do país de que se tem registro, segundo anunciou nesta segunda-feira uma empresa desenvolvedora de árvores genealógicas.

O surpreendente, de acordo com "Ancestry.com", é que o vínculo não seria por parte de seu pai, procedente do Quênia, mas por parte de sua família materna, branca, originária do estado do Kansas, com raízes irlandesas.

Após anos de pesquisa os analistas de "Ancestry.com" concluíram que Obama seria bisneto em 11º grau de John Punch, um servente que foi punido em 1640 com a escravidão perpétua, ainda na colônia da Virgínia, por tentar escapar.

Os serventes costumavam trabalhar durante um período nas colônias primitivas, geralmente em trabalhos no campo, em troca de teto e comida, mas sem receber qualquer retribuição financeira.
Punch é o primeiro caso de escravidão documentado nas colônias, ocorrido décadas antes que começassem as primeiras leis de escravidão na Virgínia.



"Dois dos afro-americanos mais significativos na história de nosso país, incrivelmente, estão vinculados diretamente", indicou o genealogista de "Ancestry.com" Joseph Shumway em comunicado.

Os pesquisadores estudaram documentos históricos do estado da Virgínia, como certidões de casamento, registros de propriedade de sua família materna, assim como análise de DNA e descobriram um ancestral africano.

Seguindo a pista dos antepassados da mãe de Obama, Stanley Ann Dunham, descobriram que ela descendia de um fazendeiro branco da Virgínia, que por sua vez descendia de um homem africano, que seria Punch.

Os documentos, segundo "Ancestry.com", revelam que Punch teve filhos com uma mulher branca, transferindo assim seu status de pessoa livre a seus descendentes, que foram bem-sucedidos homens de negócios.

"A investigação genealógica sobre indivíduos que viveram há centenas de anos nunca pode ser uma prova definitiva de que um homem é progenitor de outro", assinalou em comunicado Elizabeth Shown, ex-presidente do Conselho de Certidão de Genealogistas.

No entanto, assegurou que "este estudo cumpre os mais altos níveis (de qualidade) e pode ser considerado com confiança".

Por sua vez, Shumway destacou a coincidência histórica, já que "após um século de sofrimento, de guerra civil e de esforços pelos direitos civis, seu bisneto em 11º grau acabou se transformando no líder do mundo livre e realizou o sonho americano".

EFE (Yahoo! Notícias)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Último sobrevivente de grupo que fugiu de Auschwitz morre aos 90

DA ANSA, EM VARSÓVIA

O ator August Kowalczyk, 90, que foi prisioneiro do campo de extermínio de Auschwitz e conseguiu fugir com ajuda dos habitantes da cidade, morreu domingo em um asilo, localizado neste mesmo município, no sul da Polônia.

A casa de repouso, inaugurada há dois meses, foi aberta por iniciativa do próprio Kowalczyk, como agradecimento às pessoas que o ajudaram a escapar do campo de concentração em 1942.

"Devo minha vida à população que morava na região de Auschwitz, que desde o começo tentaram de várias formas ajudar os prisioneiros do campo e que me esconderam durante uma semana depois da fuga", disse o ator, há algum tempo, em entrevista à ANSA.

Em 10 de junho de 1942, 50 prisioneiros conseguiram escapar do campo de concentração, mas somente nove deles conseguiram sobreviver. Kowalczyk era o último que ainda estava vivo.
Com o fim da guerra, o polonês foi ator e diretor e sempre manteve contato com as pessoas que salvaram sua vida.

Fonte: Folha de São Paulo.

Serviço Secreto de FHC monitorou militantes antineoliberalismo

Documentos sigilosos do governo FHC, já desclassificados, indicam que militantes e políticos de esquerda, do Brasil e do exterior, foram monitorados pelo serviço secreto quando participavam de atividades antineoliberalismo. “Me assusta saber que um governo tido como democrático tutelou de forma ilegal pessoas que participavam de eventos pacíficos, que não representavam nenhuma ameaça à segurança nacional”, afirmou à Carta Maior o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

Brasília - Documentos sigilosos do governo Fernando Henrique Cardoso, abertos à consulta pública no Arquivo Nacional, indicam que militantes e políticos de esquerda que participavam de seminários, encontros e fóruns contra o neoliberalismo foram monitorados pela Subsecretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), o órgão que substituiu o Serviço Nacional de Inteligência (SNI), em 1990, até a criação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), em 1999.

Como a maioria dos documentos desclassificados são os de nível reservado e se referem apenas ao período 1995-1999, não é possível precisar o grau deste monitoramento. Pela nova Lei de Acesso à Informação, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em maio, os documentos reservados são liberados decorridos cinco anos, os secretos, 15 e os ultrassecretos, os mais importantes, somente após 25 anos. Mas o acervo já disponível deixa clara a linha de atuação do serviço.

Há registros que fazem referências explícitas às informações colhidas em revistas e jornais, prática tida como recorrente no serviço que perdera status e orçamento após o fim da ditadura. Mas outros revelam espionagem direta. O seminário “Neoliberalismo e soberania”, por exemplo, promovido pela Associação Cultural José Marti, a Casa da Amizade Brasil-Cuba, no Rio de Janeiro, de 5 a 9 de setembro de 1999, foi integralmente gravado em 12 fitas cassetes, entregues ao escritório central da SAE.

Chiapas
Em julho de 1996, o serviço deu especial atenção à realização, em Chiapas, no México, do Encontro Internacional pela Humanidade e contra o Neoliberalismo. “A significativa presença internacional de ativistas de esquerda transforma a região em novo polo de atração revolucionária latinoamericana”, dizia o documento produzido pelo escritório central da SAE. Os relatórios também contêm pautas de discussões, análise de conjuntura e listas de participantes brasileiros.

O ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, figura nesta lista. “Me assusta muito saber que um governo tido como democrático tutelou de forma ilegal pessoas que participavam de eventos absolutamente pacíficos, que não representavam nenhuma ameaça à segurança nacional”, afirmou à Carta Maior. Na época secretário nacional de Comunicação do PT, o ministro disse recordar-se que não divulgara sua participação no evento. “É possível até que a SAE tenha contado com o apoio de algum serviço secreto de outro país”, acrescentou.

Mesmo fazendo a ressalva de que tais procedimentos poderiam não ser de total conhecimento do presidente à época e que as informações sobre a natureza do trabalho da SAE no período ainda estão incompletas, o ministro avalia que a simples menção do nome de uma pessoa que participou de um evento democrático em documentos oficiais do serviço secreto é uma prática condenável. “O que a gente espera do serviço secreto de um governo democrático é que ele esteja atuando para defender as fronteiras do país, evitar ameaças externas, e não para monitorar pessoas que estavam lutando pelo aprimoramento da democracia”, acrescentou.

O coordenador do Projeto Memória e Verdade da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, Gilney Viana, na época deputado federal pelo PT, foi outro fichado por participar do evento em Chiapas. Ex-preso político da ditadura por dez anos, ele sabia que seus passos foram ostensivamente seguidos pelos agentes secretos até a extinção do SNI, mas ficou chocado ao saber que continuou a ser alvo durante um governo democrático. “Eu até compreenderia que os Estados Unidos estivessem monitorando o evento de Chiapas, mas o serviço secreto brasileiro realmente me surpreendeu”, disse.

Belém
O II Encontro pela Humanidade e contra o Neoliberalismo mereceu atenção redobrada por ter sido realizado em território brasileiro. Mesmo as etapas preparatórias do evento, que ocorreu em Belém (PA), de 6 a 11 de dezembro de 1999, estão registradas na SAE. Um relatório antecipa a mensagem do subcomandante Marcos, do Exécito Zapatista para Libertação Nacional do México, para o evento. Há relações de participantes e descrição dos assuntos debatidos nas etapas preparatórias de pelo menos Belém, Salvador, Brasília e Macapá.

O lançamento do evento, patrocinado pela prefeitura de Belém, também foi documentado. No relatório da SAE, há a informação de que os organizadores queriam incrementar a geração de recursos por meio da venda de objetos com a logomarca do evento, a realização de shows com artistas locais bem como com as inscrições. Entre os participantes do II Encontro, estão o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a filósofa Marilena Chauí, o sociólogo Chico de Oliveira e o ex-governador do Rio Leonel Brizola, além dos escritores José Saramago e Luiz Fernando Veríssimo.

Foro de São Paulo
Considerado à época o principal organismo aglutinador de partidos e entidades de esquerda do continente, o Foro de São Paulo, criado em 1990 pelo PT com o apoio do então presidente cubano Fidel Castro, também teve suas atividades amplamente monitoradas. A 6ª edição, realizada em El Salvador, em julho de 1996, está registrada em relatório sobre as atividades internacionalistas do PT.

A 7ª edição, que aconteceu em Porto Alegre (RS), em 1997, foi ainda mais espionada. O pacote de documentos realtivos ao evento inclui relatórios setoriais produzidos pelos grupos de trabalho, lista completa de presenças e até fotos dos participantes. São citadas lideranças de esquerda, nacionais e internacionais. Entre os brasileiros, o ministro Gilberto de Carvalho, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro e o deputado estadual gaúcho, Raul Pont (PT).

Em relatório específico, a SAE observou que, durante o evento, o então ex-prefeito da capital gaúcha Tarso Genro havia lançado o livro “O orçamento participativo – a experiência de Porto Alegre”, escrito em parceria com o então secretário de formação do PT, Ubiratan de Souza, classificado como “ex-militante da VPR”.

Os relatórios relativos à 8ª edição, que ocorreu no México, em 1999, registraram as presenças de vários brasileiros, como o atual líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) e do hoje assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia.

Grupo do México
O 4º Encontro do Grupo do México, realizado em Santiago, no Chile, nos dias 10 e 11 de maio de 1997, foi registrado pela SAE em relatório como o “marco do surgimento de uma política que transcende a esquerda”. De acordo com o serviço secreto brasileiro, “o Grupo do México é formado por representantes de partidos de centro-esquerda e teve sua origem a partir do PNUD, com o objetivo de buscar a construção de um projeto econômico para a América Latina, alternativo aos padrões neoliberais”.

Na documentação, estão descritos os principais pontos de unidade entre os presentes e há uma lista com os nomes dos brasileiros presentes. Entre eles, o ex-presidente Lula, seus ex-ministros petistas José Dirceu e Mangabeira Unger, o ex-governador do Rio, Leonel Brizola (PDT), os ex-deputados Vivaldo Barbosa (PDT-RJ) e Zaire Resende (PMDB-MG), além de Marco Aurélio Garcia e Tarso Genro, entre outros.

Attac no Brasil
O diretor-presidente da Carta Maior, Joaquim Palhares, também foi citado em documentos da SAE, principalmente por ter sido, em 1996, ao lado do ativista Chico Whitaker, um dos fundadores no Brasil da Associação pela Tributação das Transações Financeiras para ajuda aos Cidadãos (Attac), criada na França, com o objetivo de instituir um imposto sobre transações financeiras internacionais. “Muitos militantes de esquerda ainda tinham a impressão de estarem sendo monitorados mesmo após a ditadura. Mesmo assim, a confirmação desta prática causa indignação”, afirma.

Crítica contundente da ciranda financeira de capitais voláteis alimentada pelo neoliberalismo, a Attac foi preocupação constante para a SAE. A visita ao Brasil do presidente internacional a entidade, o ativista francês e diretor do jornal Le Monde Diplomatique, Bernardo Cassen, entre 1 a 5 de março de 1999, foi acompanhada com atenção. Os relatórios do serviço informam que Cassen proferiu palestras em cinco capitais brasileiras (Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre), nas quais apresentava os objetivos da organização, traçava o histórico da crise econômica mundial, defendia a adoção da chamada Taxa Tobin para a taxação do capital especulativo internacional e exortava as plateias a lutarem contra o projeto neoliberal.

Nos documentos produzidos, também constavam os nomes dos militantes identificados nas plateias de Cassen. Do escritório da SAE em Belo Horizonte, por exemplo, chegou o informe das participações de Lula, então presidente do PT, do coordenador do MST, João Pedro Stédile, do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, do geógrafo Milton Santos e do cientista político Cezar Benjamin, entre outros. Os ex-presidente Lula tinha suas atividades relatadas pela SAE, tanto pela sua militância antineoliberalismo como por ser o principal adversário político de FHC.

Viagens a Cuba
Mesmo com o fim da guerra fria e da ditadura, as viagens de brasileiros a Cuba continuaram a ser alvo de preocupação do serviço secreto. Principalmente quando se cruzavam com a luta antineoliberal. De 21 de julho a 21 de agosto de 1996, foi realizado, em Cuba, o curso de formação sindical “Neoliberalismo e Globalização da Economia”. Informes registram a participação de brasileiros, entre eles os sindicalistas Adriano Torquato, Francisco Nascimento Araújo, José Nunes Passos e Nonato César.

Há relatório de alerta para a realização em Cuba, em 1997, do Seminário Internacional sobre o Neoliberalismo, promovido pela Federação Mundial da Juventude Democrática, com a presença de militantes do MR8. No relatório pós-evento, está relatada a participação de 1,2 mil trabalhadores de 453 organizações sindicais, políticas e acadêmicas de 63 países. Do Brasil, participaram cerca de 300 sindicalistas, incluindo representantes da CUT. Há menção detalhada dos participantes. Um informe exclusivo apontava, por exemplo, o embarque de dois vereadores de Montes Claros (MG): Aldair Fagundes (PT) e Lipa Xavier (PCdoB).

Outro informe alertava que a edição seguinte seria realizada no Brasil, em 1999. O evento, organizado pela CUT, no Rio de Janeiro, de 1 a 3 de setembro de 1999, também foi documentado pelo serviço, que apresentou os textos integrais da declaração da Federação Sindical Internacional, do discurso do delegado de Cuba, Pedro Ross Leal, do delegado da França, Freddy Huck, e a proposta da CUT, entre outros.

Atividades internacionais do MST
Em 1996, a SAE acompanhou a participação integrantes do MST no seminário “Crisis del Neoliberalismo Y Vigências de las Utopias em La America Latina”, na Argentina, entre os dias 8 e 13 de outubro. Antes do embarque dos militantes sem-terra, um informe produzido pelo escritório central já alertava sobre a viagem.

Também em 1996, o serviço registrou a participação do coordenador do MST, João Pedro Stédile, no seminário América Livre, em Buenos Aires, com Emir Sader e Frei Betto.

Atividades rotineiras
Sader é citado também por sua participação em eventos comuns, como o lançamento do livro “O século do crime”, dos jornalistas José Arbex Junior e Cláudio Tognolli, em São Paulo, no dia 7 de agosto de 1996. Conforme o relatório da SAE, os autores “enfatizaram que a proliferação e o crescimento das máfias foram estimulados pela era neoliberal”.

O mesmo ocorreu com o deputado estadual gaúcho Raul Pont (PT), monitorado tanto quando participava de eventos internacionais, como o Foro de São Paulo, quanto em atividades rotineiras. A SAE registrou, por exemplo, que em novembro de 1995, quando era vice-prefeito de Porto Alegre, Pont foi recebido por papeleiros da Associação Profetas da Ecologia, na companhia do teólogo Leonardo Boff. “Eu me lembro vagamente que visitei essa cooperativa, que tinha o apoio da prefeitura e realizava um trabalho pioneiro em reciclagem de lixo”, relatou à Carta Maior.

De acordo com o relatório da SAE, o registro do evento se deu porque Boff relacionava os problemas ambientais do planeta à adoção crescente do modelo neoliberal. “Esta foi uma das atividades mais pacíficas de que já participei. Não havia nada que indicasse perigo ao governo da época. É difícil acreditar que esse tipo de coisa ocorria no governo do príncipe da sociologia”, disse.

Estudos sobre a doutrina
Um documento produzido em 1997 pelo escritório central da SAE justifica a importância dada ao tema neoliberalismo. Conforme a interpretação dos arapongas oficiais, o neoliberalismo é a teoria econômica criada após a segunda guerra como anteparo a expansão do comunismo no mundo. Teve a Inglaterra e os EUA como seus principais defensores e caracteriza-se, basicamente, pelo livre comércio, austeridade nas contas públicas, privatização, crescimento do sistema financeiro e fortalecimento do mercado.

Os agentes da SAE se debruçavam também sobre obras relativas ao tema produzidas por intelectuais de esquerda. O professor da Universidade de Nova York, James Petras, que já tinha suas atividades monitoradas pelo SNI desde a ditadura, recebeu atenção especial.

O livro “Latin American: The left strikes”, sobre a atuação das esquerdas latinoamericanas em contraposição ao neoliberalismo e à globalização, liderados pelos Estados Unidos, foi objetivo de relatório específico, principalmente porque destacava que as esquerdas latinoamericanas já haviam encontrado uma nova e eficiente forma de atuação. Os exemplos citados na obra são o MST, no Brasil, os Zapatistas, no México, as organizações camponesas, no Paraguai, e os plantadores de coca, na Bolívia e na Colômbia. Todos eles movimentos monitorados pelo sistema.

Em 1999, a SAE voltou a dividir com todo o sistema de inteligência o conteúdo de um outro livro de Petras, o recém lançado “Neoliberalismo, América Latina, Estados Unidos e Europa”. Um documento produzido pelo escritório do Rio de Janeiro resumiu os capítulos da obra e ainda relatou atividades correlatas promovidas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Antes disso, o serviço secreto registrou a visita de Petras ao Brasil para o lançamento da obra, ocorrido em 20 de maio de 1999, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

(*) Colaborou na pesquisa histórica Rafael Santos

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Quando a bandeira do São Paulo desafiou o Brasil...

... ou quase isso. Na verdade uma atitude contra o governo central (Ditadura de Getúlio Vargas).

Em 1937, a ditadura de Getúlio Vargas promoveu, em praça pública, a queima de todas as bandeiras estaduais. Num ato de extremo autoritarismo, contra o federalismo estadual e outras liberdades constituídas (derrubara também o Congresso e a Constituição).

O uso, então, dos símbolos estaduais estava proibido - era crime. Nesse contexto, em 1940, o estádio do Pacaembu é inaugurado. Getúlio Vargas, como presidente, quase que por obrigação é convidado para os festejos. Ocorre então o desfile das delegações, citado abaixo por Conrado Giacomini, em Dentre os Grandes, És o Primeiro e já retratado nesse site (SPFCpédia) no texto O Mais Querido:
"As representações de Corinthians e Palestra Itália foram ovacionadas pelas suas torcidas ao entrarem em campo. Todavia, nada igual à recepção tricolor. O estádio veio abaixo com a entrada da delegação do São Paulo, que, além do nome, trazia na camisa as cores da bandeira paulista.

Era uma resposta do público ao presidente Getúlio Vargas, odiado em São Paulo desde a Revolução Constitucionalista de 1932. As manifestações de apoio ao São Paulo vinham de todas as partes, das camadas populares nas arquibancadas ao setores mais nobres do estádio. A multidão em peso se levantou aplaudindo e gritando entusiasticamente:

- São Paulo, São Paulo, São Paulo! - apontando para a tribuna de honra, onde estava o presidente Getúlio Vargas."
Fatos assim, desse porte e gênero, não aconteceram somente nesse dia. Era comum, em manifestações da época da ditadura de Getúlio Vargas, o uso da Bandeira do SPFC como se fosse a bandeira do Estado de São Paulo, já que esta fora banida.

Repare na foto acima o uso de um pavilhão tricolor como porta-voz dos paulistas em um protesto de trabalhadores (a faixa ao centro parece reinvidicar algo para trabalhadores de lavoura).

Como já dizia o Almanaque Sportivo de Thomaz Mazzoni:
Brasileiro de São Paulo:
O São Paulo FC é o Teu
Clube, pois tem o nome de
tua terra e a alma de tua gente
Hoje, o panorama do Brasil é outro. O São Paulo rompeu fronteiras: estaduais, regionais, nacionais, internacionais... Não pertencendo mais a um único povo, a um único chão. Ainda assim, contudo, teve tradicional berço, ao qual honrou com orgulho - principalmente quando mais precisaram.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dona Europa e suas filhas

Dona Europa livrou-se, há séculos, da tutela do Senhor Feudal, ao qual esteve submetida ao longo de mil anos. Cabeça feita por Copérnico, Galileu e Descartes, casou-se com o Senhor Moderno Liberal e montou casa no bairro da Democracia.

 

Por Frei Betto, em Adital


Dona Europa puxou o tapete dos nobres, deu um chega pra lá no papa e elegeu governos constitucionais que trocaram a permuta pela moeda, evitaram fazer uso de mão de obra escrava, transformaram antigos camponeses em operários merecedores de salários.

Dona Europa passou a nutrir ambições desmedidas. Fitou com olho gordo o imenso mapa-múndi que enfeitava a sala de sua casa. Quantas riquezas naquelas terras habitadas por nativos ignorantes! Quantas áreas cultiváveis cobertas pela exuberância paradisíaca da natureza!

Dona Europa lançou ao mar sua frota em busca de ricas prendas situadas em terras alheias. Os navegantes invadiram territórios, saquearam aldeias, disseminaram epidemias, extraíram minerais preciosos, estenderam cercas onde tudo, até então, era de uso comum.

Dona Europa praticou, em outros povos, o que se negava a fazer na própria casa: impôs impérios, reinados e ditadores; inibiu o acesso à cultura letrada; implantou o trabalho escravo; proibiu a industrialização; internacionalizou normas econômicas que lhe eram favoráveis, em detrimento dos povos alhures.

Um dos povos de além-mar dominados por Dona Europa ousou rebelar-se em 1776, emancipou-se da tutela e se tornou mais poderoso do que ela – o Tio Sam.

O professor Maquiavel ensinou à Dona Europa que, quando não se pode vencer o inimigo, é melhor aliar-se a ele. Assim, ela associou-se a Tio Sam para exercer domínio sobre o mundo.

Dona Europa e Tio Sam acumularam tão espantosa riqueza, que cederam à ilusão de que seriam eternos o luxo e a ostentação em que viviam. Tudo em suas casas era maravilhoso. E suas moedas reluziam acima de todas as outras.

Ora, não há casa sem alicerce, árvore sem raiz, riqueza sem lastro. Para manter o estilo de vida a que se acostumaram, Dona Europa e Tio Sam gastavam mais do que podiam. E, de repente, constataram que se encontravam esmagados sob dívidas astronômicas. O que fazer?

A primeira medida foi a adotada em turbulência de viagem de avião: apertar os cintos. Não deles, óbvio. Mas de seus empregados: despediram alguns, reduziram os salários de outros, deixaram de consumir produtos importados. Assim, a crise da dupla se alastrou mundo afora.

Dona Europa e Tio Sam não são burros. Sabem onde mora o dinheiro: nos bancos. Tio Sam, ao ver o rombo em sua economia, tratou de rodar a maquininha da Casa da Moeda e socorreu os bancos com pelo menos US$ 18 trilhões.

Dona Europa tem várias filhas. Segundo ela, algumas não souberam administrar bem suas fortunas. A formosa Grécia parece ter perdido a sabedoria. Gastou muito mais do que podia. Os mesmo aconteceu com a sedutora Itália, a encantadora Espanha e a inibida Irlanda.

Como o cofre da família é de uso comum, Dona Europa se cobriu de aflições. Puniu as filhas gastadoras e apelou à mais rica de todas, a severa Alemanha, para ajudá-la a socorrer as endividadas.

A Alemanha é manhosa. Disse que só socorre as irmãs se puder controlar os gastos delas. O que significa cortar as asinhas das moças – o que em política equivale a anular a soberania.

Soberana hoje, na casa de Dona Europa, só a pudica Alemanha. O resto da família é dependente e está de castigo. A mais cheirosa das filhas, a França, anda rebelde. Após aparecer de mãos dadas com a Alemanha, agora que arrumou namorado novo encara a irmã com desconfiança.

Nós, aqui do sul do mundo, que ainda não cortamos o cordão umbilical com Tio Sam e Dona Europa, corremos o risco de ficar gripados se Dona Europa continuar a espirrar tanto, alérgica ao espectro de um futuro tenebroso: a agonia e morte do deus Mercado, cujos fiéis devotos mergulharam em profunda crise de descrença.

Avanço de 'Homo sapiens' na Europa Central expulsou Neandertais

Erupção vulcânica apontada como uma das causas da extinção desses hominídeos ocorreu muito após o desaparecimento deles da Europa Central


Exposição em museu croata mostra reprodução de uma família de Neandertais
Pesquisadores retiraram amostras de cinzas vulcânicas em cavernas habitadas por neandertais, na imagem, reprodução de família Neandertal em exposição de museu croata (Nikola Solic/Reuters)

O desaparecimento dos Neandertais há cerca de 30 mil anos é tema de constante debate entre os arqueólogos de todo o mundo. As opiniões divergem entre as mudanças climáticas causadas por uma grande erupção vulcânica, a competição com os Homo sapiens, ancestrais do homem moderno, e a combinação desses dois fatores.

Um estudo publicado no periódico científico PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) desta semana reforça a tese de que os Neandertais, primos do homem moderno, desapareceram por influência da competição com o Homo Sapiens – ao menos na Europa Central. Esses ancestrais do homem moderno entraram no continente pela África, e possivelmente, pelo Oriente Médio, em uma ocupação que levou milhares de anos para ser concluída.


Erupção não provocou a extinção dos Neandertais, diz pesquisa


Um time de 40 pesquisadores da Europa, liderados pelo geógrafo John Lowe, da Universidade Royal Holloway, na Inglaterra, focou esforços na análise microscópica das cinzas vulcânicas que assolaram a Europa em uma erupção há 40 mil anos. Se as cinzas vulcânicas mostrassem que os Neandertais viviam na Europa Central quando houve a erupção, então a teoria sobre a influência deste fator na extinção ganharia força.

Mas se, ao contrário, as cinzas demonstrassem que não havia mais vestígios de Neandertal naquela região na época da catástrofe, então a tese da competição com o Homo sapiens seria reforçada, porque indicaria que os Neandertais já teriam batido em retirada muito antes de as cinzas dominarem a atmosfera da Europa, derrubando a temperatura em 2ºC por três anos.

Os resultados das análises mostraram que os Neandertais não habitavam a Europa Central quando houve a grande erupção vulcânica, prevalecendo a versão -- nada amistosa -- da competição com os Homo sapiens.

A tese reforça outra já divulgada no ano passado por cientistas da Universidade de Cambridge, da Inglaterra. Eles divulgaram na revista Science uma pesquisa que mostrava que a competição entre Homo sapiens e Neandertais teve impacto na extinção deste último no Leste Europeu. Agora a tese ganha reforço.

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Cinzas vulcânicas - Os pesquisadores coletaram amostras microscópicas de cinzas vulcânicas em quatro cavernas da Europa Central, onde ferramentas de pedra e outros artefatos típicos de Neandertais e de Homo sapiens foram encontrados.

Eles também reuniram partículas de cinzas de um local da Líbia e de pântanos e mares da Grécia e do Mar Egeu.

Os resultados são incompatíveis com a hipótese de que a cinza foi responsável pela extinção dos Neandertais, ao menos na Europa Central. Os vestígios de ocupação daquela área pelos Neandertais começaram a diminuir muito antes da erupção e das mudanças climáticas extremas. Isso sugere que os Homo sapiens já tinham se estabelecido naquela área quando ocorreu a erupção.

Refúgio Ibérico – No entanto, os autores afirmam que a pesquisa diz respeito apenas à Europa Central e, provavelmente, ao Leste Europeu. Eles descartam que a conclusão possa ser estendida ao Oeste da Europa, já que os dados daquele local não foram analisados.

Alguns pesquisadores garantem que os Neandertais se mantiveram na região onde hoje fica Portugal e a Espanha há até 35 mil anos. "Não podemos descartar que os Neandertais sobreviveram em refúgios como na península Ibérica", disse Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres e co-autor da pesquisa.

Fonte: Veja.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

"Brasil forjado na ditadura representa Estado de exceção permanente"

Para professores, filósofos e defensores de direitos humanos, o golpe de 64 moldou um país de estruturas autoritárias, que garante direitos apenas para as classes proprietárias e que transformou a exceção em consenso. Em seminário realizado em São Paulo, eles afirmaram que a exceção é o novo modo de governo do capital e que o povo brasileiro vive um momento perigosíssimo de letargia. A reportagem é de Bia Barbosa.